Eu cresci no meio do mato.
Entre o verde que parecia não acabar e um azul tão vibrante que, por muito tempo, achei que todo céu fosse uma espécie de exagero.
Qualquer paisagem que passava por mim, eu transformava em quadro. Na minha cabeça, tudo ganhava moldura preta fininha, vidro elegante e uma distância exata para ser observado.
Hoje eu sei o nome disso.
Estética.
Antes de ser trabalho, foi instinto.
Ela estava no meu quarto rebuscado de florais maximalistas, nas cortinas, nas colchas, na casa da tia, no porão, na cômoda cheia de panos de prato bordados à mão e engomados como se guardassem uma liturgia doméstica.
Estava na horta que alimentava.
No cavalo que abraçava.
Na rotina de menina da roça com a cabeça atravessada por um mundo imenso, passando inteiro pela janela da imaginação.
Eu não sabia ainda, mas estava aprendendo a reparar.
E reparar é uma forma de criar.
A escrita veio como ferramenta para dar conta dessa intensidade. Anos depois, ela me levou ao jornalismo. Fui jornalista com fome de mundo. Os textos nasciam com facilidade, mas o lugar onde eles eram colocados não me bastava. A palavra precisava de forma. A ideia precisava de corpo. A notícia precisava também de enquadramento.
Foi por isso que fui ao design gráfico.
Eu queria compor com o olhar aquilo que eu já sabia dizer com texto.
E, nesse caminho, outras memórias começaram a voltar. A menina da roça costurando roupas para bonecas. A mistura orgânica de estampas, panos, cores, sobras, invenções. Uma beleza sem manual, mas com uma inteligência que eu reconhecia antes mesmo de saber explicar.
Fui atrás dela.
Imprimi meus primeiros 100 metros de tecido e, com eles, lancei a BEIRA em 2019.
O estoque zerou em poucos dias.
As ideias cresceram.
O mundo girou.
E uma pandemia atravessou a estrada.
Os anos seguintes não foram simples. Mas eu me sustentei na minha própria estrutura. Uma estrutura que, no fundo, já tinha sido montada lá atrás: na chácara, na infância, na observação, nas referências miúdas, na capacidade de transformar pouco em linguagem.
Manoel de Barros escreveu sobre a grandeza do simples. Sobre a força de falar da própria rua e, ainda assim, tocar o mundo.
Talvez seja isso que eu persiga desde sempre.
Quando falo de mim, não falo só de mim.
Quando desenho uma estampa, não desenho só uma estampa.
Quando crio uma marca, não crio só uma marca.
Eu organizo visualmente aquilo que me atravessa — e, de algum modo, também atravessa outras mulheres.
Tenho alguma noção do poder que existe nas minhas mãos. Talvez não inteira. Talvez nunca inteira. Mas suficiente para continuar.
E continuo aperfeiçoando esse gesto todos os dias.
Com a mente.
Com o coração.
Com método.
Com intuição.
Com uma espiritualidade que não precisa fazer cena para existir.
E com uma mundanidade deliciosa, porque eu gosto mesmo é da beleza quando ela encosta na vida.
Agora quero abrir este lugar.
Não como vitrine pronta.
Mas como origem.
Aqui começa o olhar.
Depois ele vira roupa.
Vira estampa.
Vira objeto.
Vira infância.
Vira palavra.
Vira mundo.
E, se fizer sentido para você, fica por aqui.
Ainda tem muita coisa nascendo.
