Dia destes acordei querendo muito me ligar no viva voz. Já teve essa vontade também?
Algo como se eu quisesse loucamente falar comigo, me escutar com voz rouca ainda da noite bem dormida e dos sonhos tão realistas que passaram por mim. Eu passei por eles talvez. Eu os vivi? Sim, acordei neste dia querendo mesmo me encontrar comigo.
Então fiquei em silêncio. Como que em luto. Luto de morte, não de luta.
Em 2023 minha declaração do ano foi não lutar mais. Me deixar ser água na correnteza da minha própria vida assim como o sangue na veia levando respiro a cada parte que me compõe. E fiz direitinho essa tarefa. Conheci gente feia demais, vivi milhões de sorrisos, senti a juventude na pele, me desfiz da perfeição de ser mãe, coloquei todos os dias meu corpo pra dançar e pisar na areia. Ainda não fui morar na praia. Esse ano eu vou, tá?
Acabou que não consegui meu número de celular e não falei comigo naquele dia. A saudade foi crescendo bastante, um sentimento já vivido com a morte do meu pai. Era pra ele que eu ligava pedindo socorro e eu sempre me escutava quando ele lá de outro estado dizia que Deus só dava a cruz do tamanho da força. Eu sei, pai... Sei mesmo! Hoje pratico com muito cuidado e atenção uma espiritualidade pensante, cheia de não-mistérios e encantos ao mesmo tempo. Isso anda funcionando, pai! Ainda tenho uma cordinha segurando como um balão de gás, mas é empolgante a viagem do conhecimento, da amplitude.
Eu queria falar comigo para não ter que falar de mim. Uma garra pra me ver em terceira pessoa e me abraçar me acolher me oferecer um drink gostoso, uma noite quente. Estou me fazendo falta e não sei por onde começar, achei que a ligação salvaria minha agústia. Levaria embora todo meu medo, a dor do coração apertado, a somatória indo embora, o tesão ficando na nuvem e pulsando com força na mente. E ela não mente. Sabe sentir o que digo e esse encontro será contemplativo, eu sei.
Lá em 2023 me descobri segura, romântica, caótica, ansiosa. Então me curei movendo o corpo e chamando São José de pai. Descobri que sou uma baita impostora mesmo cuidando bem das plantas, cozinhando todos os dias, tomando litros sem fim de água, usando roupas sustentáveis, sendo presente pra minha pituca amada que me faz chorar só de pensar na dor que ela possivelmente já viveu tão miúda.
Prazer, sou Marília Gabriela e hoje quero me chamar mais Gabriela que Marília. Que essa Gabriela me leve para viajar por terras férteis e eu encontre a árvore que brota o número do meu celular para que eu então me ligue llogo!
Imagina só quando eu me atender? Escutar a voz que fala na minha mente toda hora sempararumminutosequer... Vou olhar pra ela com ouvidos de escuta. Sou tão boa praticamente da escuta ativa e agora me lembro de todo capítulo do livro da minha vida no qual conto das aventuras de ouvir mais que falar, de me interessar e te fazer falar para que eu te entenda, te conheça, mergulhe em você. Por isso fui estudar jornalismo. Mesmo sem querer eu já queria.
Mas agora eu preciso parar aqui, tomar um banho e partir para um micro-viagem até a cidade vizinha que tem Belo no nome na companhia de uma amiga para enxergarmos no espelho nossos relfexos ainda mais bonitos - vamos ao salão de beleza!
Já eu volto, beijos meus.
